terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

... Casa Na Lua, por G.H.C ...


Terça-feira passada acordei um pouco mais tarde do que o usual. Troquei de roupa. Escovei os dentes. Fiz café. Ficou horrível. Fiz suco. Ficou sem gosto. Decidi tomar água. Abri o jornal. Nada de especial. As mesmas notícias de sempre. Até que algo chamou minha atenção.
Na parte de economia, em um pequeno pedaço no canto inferior esquerdo da página, quase despercebida devido às notícias sobre a crise econômica mundial, uma nota informava que a Lua estava em promoção. De fato, depois das grandes descobertas da NASA, o interesse na Lua se tornara quase nulo. Ela estava tão barata, tão barata, que decidi comprar.
A Lua me interessava por infinitos motivos. Entre eles estava o fato de que ela era desabitada e que meus jantares não seriam mais sub o luar, mas sim no próprio luar.
Fui até o banco, saquei algum dinheiro. Fui à casa lotérica e paguei o boleto. Em menos de dois dias a confirmação de posse chegou. Eu finalmente era o dono da Lua.
Arrumei minhas malas e peguei o ônibus espacial. Chegando aqui, na Lua, havia muito pouca coisa. A primeira coisa que fiz foi construir uma pequena casa. Ela tinha um quarto, uma cozinha e um banheiro. Agora eu estou aqui, escrevendo esse texto enquanto o material que pedi não chega da terra. Vou construir meu próprio país, o Estado Democrático que na verdade me pertence da Lua. Meu castelo já está em construção.
Vivo aqui sozinho por enquanto. Logo, logo, algumas pessoas se mudarão para cá. Estão excluídos do meu país aquelas pessoas que só vieram ao mundo para bagunçar o que já foi feito bagunçado. Essas pessoas nunca terão visto para entrar no meu país. O que significa dizer que pouquíssimas pessoas poderão viver ou mesmo visitar aqui.
Quero construir uma casa grande, com piscina. Ela não terá muros. Quero construir um grande jardim, um grandíssimo jardim. Mais do que tudo, quero que ela venha morar aqui comigo. Sim, ela mesma. Não, você não a conhece, mas é importante apenas saber o quão especial ela é para mim. Na última vez que nos vimos, ela estava linda, lindíssima. Vestia um olhar fugitivo e um sorriso que, mesmo que não fosse encantador de fato para o universo, era a ilusão que eu mais adorava ter.
Na última vez em que nos vimos, conversamos por algum tempo, ficamos em silêncio, voltamos a conversar, nos olhamos, nos ignoramos... Despedimo-nos. Ela, porém, despediu em silêncio, por mais que em seu coração palavras pulavam e dançavam em um ritmo alucinante de forró pedindo para serem ditas. Eu disse, sempre disse tudo, todas as palavras, que também dançavam no meu coração, mas ao som de heavy metal. Eu disse tudo, mesmo que tenha feito nenhum efeito, mesmo que tenha sido um defeito, disse todas as coisas românticas e constrangedoras que brigavam com minha razão, que insistia comigo que eu não devia me sujeitar a tal entrega. Por mais que meu rosto se avermelhasse ao ser sincero, fui corajoso, odiava jogos, e disse... Até mesmo disse aquilo que talvez não devesse ser dito. Ela queria me dizer, mas seu espírito, mais forte, ou não, do que o meu, calou sua boca. E suas palavras ficaram presas, nunca foram ditas. Eu queria, queria muito que ela dissesse aquelas simples palavras, teria feito toda diferença do mundo.
Agora eu estou aqui, na Lua. Ela está lá, na terra, no fim do mundo. E, apesar dos milhares quilômetros de distância, segundo os cientistas, que insistem em fazer cálculos e medidas, ela permanece em meu pensamento. Eles nunca conseguirão calcular isto: meu nível de insanidade por continuar pensando nela, por continuar... Não faz mais diferença.
Convidei-a para vir morar aqui na Lua, trazer a família, até os amigos que quiser. Mas, para ser sincero, se ela tivesse dito aquelas palavras, ou melhor, se ela ligar para o meu celular aqui na Lua ou talvez mandar mensagem pelo facemoonk, eu viajaria todo dia, mesmo que andando, para a Terra, só para vê-la, só para estar com ela. Só para ver aquele sorriso que, mesmo que seja apenas um sorriso, uma contração muscular dos músculos da face, é minha ilusão mais deliciosa. Agora devo ir, acabou de chegar um ônibus espacial com mármore terrestre... Ou então é apenas um E.T. tentando me passar trote.

2 comentários:

  1. Um texto muito sagaz e inteligente feito pelo parceiro do blog, galba, Parabéns cara, ficou sensacional

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  2. Muito bom mesmo, uma certa morbidez com um pouco de exagero sempre fica legal.

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